Noite serena de suavinstantes. Convido-me a fazer um promenade em meu jardim. A fogueirarmada, pronta me espera para ser acesa. Sinto o toque transparente das brumâncias, o floripôndio é senhor-dama da noite e forra de perfumalfombra o todo reservado do jardim. Eu chamo os meus morcegos. Eles comparecem em bando, tecem revoada em torno de meu corpo, fazem dançar a capa que me cobre, obedecem ao comando de meu primeirarcano, silvam desafios pelo ar, revelam consciências que me vêem, e eu vejo consciências que me têm.
Acendo o fogo. Fiat Lux, subo às alturas, clarilumino as profundezas, salas escuras se abrem, penetro nas criptas do silêncio, atravesso por passagens piromânticas, chego ao centro enluarado do castelo. As Gárgulas montam guarda pelas torres, pelos cantos, não se aproximam do fogo, contudo, diante do qual eu me sento, e descalço, piso o húmus do qual sou feito, e deixo queimar dentro de mim o transmutável possível, aquela parte de mim que me espera, que me pede um fogonesto de clareza e de verdade, capaz de me ensinar a ser eu mesmo, a usar simplesmente as minhas próprias mãos para dar conta da missão que a mim compete compreender e bem realizar nesta existência. É preciso estar na posse de meu nome, na posse do segredo de mim mesmo.
HUMILBRASAS
Eu chamo meus morcegos. Revoada
deles traz o mistério a decifrar,
e ousando compreender o som-ruflar,
me abismo no segredo em tudo ou nada.
Alcanço as consciências sem pensar,
nas asas dos quirópteros vejo a estrada,
mergulho no profundo céu de almada,
visito meus castelos ao luar.
Acendo então na pira da existência
a sagrada fogueira da vaidade
que varre deste meu ego as montanhas,
excessos que me cegam nas entranhas
e, ao fim, resto-me em brasas transparência,
carbono de mim mesmo na humildade!
Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo




