Blog de Paulo Urban, sonetista do Aquarismo

27 de junho de 2009

HUMILBRASAS

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 6:46

Noite serena de suavinstantes. Convido-me a fazer um promenade em meu jardim. A fogueirarmada, pronta me espera para ser acesa. Sinto o toque transparente das brumâncias, o floripôndio é senhor-dama da noite e forra de perfumalfombra o todo reservado do jardim. Eu chamo os meus morcegos. Eles comparecem em bando, tecem revoada em torno de meu corpo, fazem dançar a capa que me cobre, obedecem ao comando de meu primeirarcano, silvam desafios pelo ar, revelam consciências que me vêem, e eu vejo consciências que me têm.

 

Acendo o fogo. Fiat Lux, subo às alturas, clarilumino as profundezas, salas escuras se abrem, penetro nas criptas do silêncio, atravesso por passagens piromânticas, chego ao centro enluarado do castelo. As Gárgulas montam guarda pelas torres, pelos cantos, não se aproximam do fogo, contudo, diante do qual eu me sento, e descalço, piso o húmus do qual sou feito, e deixo queimar dentro de mim o transmutável possível, aquela parte de mim que me espera, que me pede um fogonesto de clareza e de verdade, capaz de me ensinar a ser eu mesmo, a usar simplesmente as minhas próprias mãos para dar conta da missão que a mim compete compreender e bem realizar nesta existência. É preciso estar na posse de meu nome, na posse do segredo de mim mesmo.

 

 

HUMILBRASAS

 

Eu chamo meus morcegos. Revoada

deles traz o mistério a decifrar,

e ousando compreender o som-ruflar,

me abismo no segredo em tudo ou nada.

 

Alcanço as consciências sem pensar,

nas asas dos quirópteros vejo a estrada,

mergulho no profundo céu de almada,

visito meus castelos ao luar.

 

Acendo então na pira da existência

a sagrada fogueira da vaidade

que varre deste meu ego as montanhas,

 

excessos que me cegam nas entranhas

e, ao fim, resto-me em brasas transparência,

carbono de mim mesmo na humildade!

 

 

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo

20 de junho de 2009

ÁRVORE da VIDA

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 9:13

Feito à imagem e semelhança divinas, Adão mítico traz consigo o Universinteiro em seu corpalma. O Homem primoriginal pertence à Árvore da Vida, com suas 10 Sephiroth unidas entre si por 22 elos, a compor os 32 caminhos da Inteligência Cósmica. O celestorvalho é seiva desta Árvore do Éden, e seus doze frutos têm um quê de imortalidade.

Cabala é tradição, sabedoria secreta transmitida de boca a ouvido, daquele que fala àquele que escuta e guarda, até que um dia, tomado pelo entendimento, o novo iniciado possa transmitir também.

A Cabala nos ensina: a Árvore da Vida é o grande mapa cósmico que, transcendendo a religiosidade judaico-cristã, aponta para um universo sem fronteiras dogmáticas, guardado na singularidade de nosso sagradarbítrio anímico, elemento este capaz de nos levar de volta a Deus, desde que nossas escolhas pessoais assim permitam. Percutir qualquer um dos 32 caminhos da Árvore da Vida é fazer tremular a teia inteira, numa só vidensonância; é descobrir que toda e qualquer parte contém o Todabsoluto, e ainda revelar que ele Todo é sempre maior que a mera soma das partes que compõem o grande tabuleiro da videxistência.

Acima dos Homens, estão os Anjos. Na hierarquia espiritual, acima destes, os Arcanjos; e acima de todos os níveis, mas abaixo do Pai Celestuniversal, trabalham e oram por nós os Serafins, torcendo para que a vida seja sempre uma Arvoreterna, e que esta cresça diligentemente voltada à Luz que vem de Cima, portadora, pois, da sementevolutiva da Grande Consciência.

Árvore da Vida

Árvore da Vida


ÁRVORE DA VIDA


Abri-me às trinta e duas plenestradas

que em Árvore da Vida tecem teia;

sou parte de uma parte e sangue em veia

ligando-me às artérias luxestreladas.


Na parte eu trago o todo de mãos dadas

e assim me acendo e aciono mil cadeias

no encanto além do canto das sereias,

na paz da liberdade de almaladas.


No mapa da Cabala em labirinto

só Deus sabe que o centro é o humanotauro

e desafia a serem os homens, anjos;


Pois, mais do que a raiz em ser centauro,

além da inteligência em ser instinto,

o Grande Serafim nos quer Arcanjos!


Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo

15 de junho de 2009

Lua de Odin

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 5:31

As mouras-fadas na clareira de seu bosque, noitentrando com o eclipse no horizonte, cirandavam em volta do carvalho-mãe e invocavam o oráculo de Odin, Sábio Bardo da runescritalfabética de Anan Cara, o Grande Amigo da Alma celta. Dois corvos, um negro e o outro branco, despontaram em meio ao vententorvelinho num rasante no terreno, atestando a presencinsólita de Odin, Rei dos deuses que, invocado das profundezas de Valhala, fez-se presente bem ali, no meio delas. Os lobos, noturníssono, uivaram ao longe, eclipsencantados. Festejavam a chegada de seu Pai, Príncipe das Sombras, Senhor dos Mortos, conhecedor de todos os futuros. O eclipse fora a porta por onde entrara o Bardo visionário. Havia tempo para o Oráculo.

As mouras se curvaram diante Dele. A noitelemental estava conjurada. A feiticeira fada-mãe adiantou-se, prostrou-se em reverência e depositou os votos diante Dele. Odin recebeu-os com agrado e, por isso, abrindo a mão esquerda, deixou cair três pedras sobre o altar bucólico. Por fugidio momento, as Walkírias se tornaram transparentes e foram vistas silentes, em revoada no local. Guerreiras, cercavam seu Mestre, tecendo em torno Dele sua cordenergética proteção. E o Profeta, um dos olhos escavados, cerrou o outro, e deixou-Se arrebatar com elas. As mouras correram então ao altar a fim de olhinterpretar o futurinstante, o agouro que lhes estava tatuado nas três runas daquela aindeclipsada Lua de Odin.


Runas de Odin
Runas de Odin

LUA DE ODIN


As Mouras da floresta cirandavam…

No eclipse da Lua aguardado,

ao guizo dos pandeiros, fogo armado,

dançavam à rabeca e conjuravam.


As Mouras indagavam ao Sábio Bardo

e em três pedras caídas se encontraram

as Runas que assim postas divisavam:

Gebo entre Wunjo e Jera. Tinham ar do


quão próspero o futuro lhes seria:

Marte e Vênus ativos, Gebo é fértil

se Jera se impregna do amor Wunjo.


Pois que o eclipse em ser sombra em Lua punge

guardar sempre o mistério da alma celta:

Presente é equilíbrio na Alegria!


Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo

5 de junho de 2009

CASILLERO del DIABLO

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 12:31

Éramos dois à camesa posta, o quarto todo sombriluminado à luz de velarchotes. Depois de anos na negrescura solidão, o branco do silêncio era só o que importava. O vinho falava por si, meu cale-se no teu cala-te; nossos dois cálices falavam por nós. Brindamos o temido e desejado reencontro.  A mente, aquela que mentengole a gente, precisava estar calada. É que a mente só nos fala sempre, ininterruptamente, todo o tempo diz seu nome e nos diz que ela-(é)-mente.

 

Brindestalado, brindefeito, pusemos de imediato após o primeiro gole, a mentespertafoita bem lá dentro da garrafa, tapamos, e o demônio assim restou presenrolhado até o fim daquele tão esperado camenbanquete.

 

Disse eu, então, a ela, sem as sombras das máscaras, sem o rosto da serpente, sem a cara que desmente: — Perdoa-me! Lancei-te sim magia, mas foi de amor tão-somente. Feiticencanto de alma nobre, que me fez sofrer só mente.

 

E ela me respondeu sorrindo em simples mente: — Nada a perdoar. Tudo é da Lei.  Magia faz parte; a vida á mágica… encantacéu aberto.    

E bebemos. E comungamos.

 

Mas eu estava lá, preso naquelistória enquanto o demônio estava preso e mentesquecido na garrafa. Mentestranhamos um pouco um ao outro, eramestávamos os mesmos, mas tão diferentes!.  Sabíamos nos entreolhares a tristeza da dor, a semente da flor, a certeza do amor. E brindamos e bebemos e amamos e depois dormimos juntos e acordamos no dia seguinte com a garrafa já vazia. O vinho havia acabado. E o eternespelho do demônio, de mente em mente, assim demente, se soltara.

 

CASILLERO del DIABLO

“Por que há sempre 666 botillas na adega do demônio,

e seu taverneiro-mor toma conta para que estejam sempre cheias”

 

Teu olor é fragrância em Casillero

Que enfeiticentorpece a alma obnubilada;

Aspiro o tinto orvalho da invernada,

Descubro teu demônio rubro-nero.

 

Mistério pro Diabo nunca é nada,

Deixo a Deus que recrie o mundo inteiro;

Sou fóton bipartido cosmiqueiro,

Orgasmo de teu sexo nesta estrada.

 

Brindemos com o cálice vermelho,

Selemos nosso pacto com sangue;

Eu toco violino em stacatto,

 

Mephisto encontra Fausto em pleno ato;

Lancei-te meu feitiço em bumerangue,

Pra sempre restei preso em teu espelho!

 

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo.

29 de maio de 2009

Orionrigens - Diariutópico de Bordo

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 20:01

Diariutópico de Bordo

Horinterestelar Oitopontoitopontoito:

O Portal de Órion está aberto! Telepatintercósmica comunicação com nossos ancestrais permitida. Voltam a operar os buracosmolares de minhoca, as fendas quânticas, as dobras intercronodimensionais.

3 Marias

Constelação do Orion

 

Há milhares de anos, muitos assim o crêem, os povos mesopotâmicos e também o Egito, receberam a visita dos habitantes de Órion, dos quais herdaram uma série de conhecimentos, entre eles a astrologia, desenvolvida com excelência pelos Babilônios e Sumérios, bem como os fundamentos da alquimia, que resultaria no embalsamento das múmias, cujo requinte tecnológico se deu a partir de 1.300 a.C., já na Era das dinastias faraônicas. Quando os visitantes extragalácticos se retiraram, deixaram conosco um perene sinal, as pirâmides de Gizé, marca de sua presença na Terra.

Nebulosa de Orion

Nebulosa de Orion

 

Quéops, Quéfrem e Miquerinos, aliás, não por acaso estão alinhadas entre si da mesma forma que se dispõem no céu as famosas Três Marias, estrelas da constelação de Órion, que demarcam a bainha da espada do gigante caçador, um dos filhos de Posêidon. Batizadas pelos árabes, são elas Mintaka (um sistema binariestelar), Alnilam e Alnitaka. Um pouco ao sul das Três Marias, podemos ver a Grande Nebulosa de Órion, uma das raras nebulosas identificáveis a olho nu. Com o auxílio de um pequeno binóculo, observamos aí a soberba imagem de uma nuvem estelar difusa, de cor azul-esverdeada brilhante, oriunda da Galáxia de onde provieram os orionianos, seres de Luz e clara Consciência, guardiães cósmicos dos mistérios que cercam nossa própria origem.

Nebulosa de Orion

Nebulosa de Orion


 

É chegado o dia terrestre em que o novo-velho Portal de Órion está (re)aberto. Fiat Lux, convoquem-se para a natural missão os despertos e todo aquele que vibra em sintonia com a Nova Consciência planetária, cujos eflúvios cada dia mais fortemente têm entrado nos homens, sensivelmente tocando a mecha divina guardada em nossos corações. Por isso, segue o signo:

 

ORIONRIGENS

 

A humanidade enquanto cria, vive

a própria realidade que se vê.

O Universo é consciente em mim e você,

herdeiros do ancestral berço de Nínive.

 

Pois lá viveram nossos mestres, que

oriundos da Luz de Órion, inclusive,

degredados de um Reino onde eu estive,

trouxeram para a Terra o seu buquê.

 

 

São flores, são perfumes, são espinhos;

arrranjos em coroas e corbelhas,

são raças e etnias diferentes;

 

 

São povos que entre os cinco continentes,

enquanto seguem História em seus caminhos,

descobrem-se do Cosmos almas velhas.

 

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo

 

22 de maio de 2009

CRUZADAMANTE

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 6:16

Com a posição enfraquecida dos cristãos, o ano de 1187 foi marcado pela cruenta reconquista de Jerusalém pelos duzentos mil soldados a comando do astuto sultão curdo Salah Al-Din (1138-1193), que cercaram a cidade, capital do Reino Latino do Oriente, e a tomaram após meses de prolongado e sanguinário combate, dado à brava resistência organizada pelo Cavaleiro de Cristo Balian de Ibelin, que forçou com que Saladino recorresse à diplomacia, mais do que às armas, para ter Jerusalém o quanto antes de volta. Negociada a trégua, o sultão concordou em deixar regressar a Europa todo cristão que lhe pagasse um pequeno resgate, anistiando, porém, deste imposto de salvo-conduto todas as crianças, mulheres, velhos e mendigos e escravos que habitavam a cidade.
Eu, cavaleiro mercenário nórdico, perdido naquele sem-fim-do-mundo, entre pobres e nobres cruzados de expressiva maioria francesa, antes de entregar aos muçulmanos meu indulto de alforria, naquela noite, véspera de minha partida, fui ter com Shera Al-Zhora, linda ex-princesa muçulmana por mim aprisionada, minha inesquecível recompensa perdida. Tivesse a paz firmada entre Saladino e Balian vingado além de suas próprias pessoas, Jerusalém talvez se tornasse para sempre, mais que uma terra divina, um lugar onde os homens todos se entendessem.
Sim, é o amor que nos torna a todos iguais: é o aceitar das diferenças, a ponte entre abismos, o luminoso beijo de entrelaçalmas. Conquistador conquistado, mercenário derrotado, o maior prêmio em toda a minha vida, agora também a maior das minhas perdas naquela maldita cruzada, estava ali, olhos negros bem pintados por detrás do véu, sensualmentislâmica deitada à minha frente…

 

CRUZADAMANTE

 

Despi-me ainda estava no teu pórtico;

deitei a espada nua sobre a clave,

as botas descalcei e em passo grave

cruzei circuito límbico sub-córtico

 

e entrei prumo excitado em tua nave.

Desfiz-me da armadura estilo nórdico

e amei-te igual guerreiro - estilo sórdido -,

rasguei-te então as vestes, dei-te a chave

 

e abri o teu baú de ouro Templário.

Cruzado cavaleiro eu te conquisto,

tiro o véu de teu rosto e vejo bem

 

que a Lua em teu olhar tem brilho misto:

é Cruz, é Cimitarra, é Santuário,

cravando em nosso amor Jerusalém!

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo 

15 de maio de 2009

HIPERVENTILAÇÃO

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 7:54

            Não, dormindo eu não estava; portanto, nem vou aqui chamar de sonho lúcido a este mundonírico repletamente tomado por uma iridescência flutuante de vivimagens que me ocorriam sem cessar, levando-me irremediavelmente e sempre mais profundestranhamente para aquela dimensão desconhecida, vivendo emoções guardadas há milhões de anos-luz na fresta entre a surpresa e o dèjá-vu da futura memória.

            Era uma viagem inauditinsólita, cuja paisagem me prendia de alma-e-olhos em seu itinerário móbile, amarrando-me à grande teia tecidemcolorido psiquântico-mandálico. Difícil traduzir em palavras, nas imagens de um soneto muito menos, ora, eu, simplesmente…, e já fazia algum tempo - tempestagora de todo relativo e esquecido nos relógios que eu deixara – eu… simplesmente… ins-ex-ins-ex-ins… eu hiperventilava…

 

 

HIPERVENTILAÇÃO

 

Se estou comigo mesmo, hiperventilo,

Respiro intensamente, profundíssimo;

Consciência mantraliza o eco-uníssono;

Na base dos pulmões eu ressibilo.

 

Viajo em transdomínio paisagíssimo,

Revejo o parto, a vida, rejubilo;

Nos recônditos da alma me destilo,

Sou navespaçonave em mundo altíssimo.

 

Perscruto em estribilho sinestésico

Extra-propriocepções transcendentais,

Deslizo em labirinto endolisérgico,

 

Projeto-me no abismo em grito enérgico,

No rio Lethes antídoto-amnésico

Transmuto em ouro os traumas perenais!

 

 

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo

 

 

 

9 de maio de 2009

ANJUMANOS

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 13:23

Palavras colhidas num texto de Christiano Sotero, 78 anos, filósofo e poeta, um dos raros alquimistas contemporâneos, ainda vivo entre nós:

Conta-se que originalmente o homem era dotado de asas, mas que as perdeu ao ser expulso do Éden, ao mesmo tempo em que a serpente teria perdido as suas patas. Desde então, só mediante a purificação desse seu estado denso, e com o gradativo retorno à pura condição primeva, é que podem os homens recuperar as suas asas. Para tanto é preciso orar sem cessar e querer tê-las (…) Nisso reside a magia capaz de fazer nascer asas nos homens. É o direcionamento espiritual da alma que nos ensina a aspirar a seu vôo soberano. Quando quer que a meditação e a oração se tornem orgânicas, as asas, esses novos órgãos, se substancializam em nosso corpo sutil; elas expressam uma nova realidade anímica alcançada e brotam, pois, da perseverança contemplativa: primeiramente se constelam como energia sutil em nosso mundo inconsciente e, uma vez que aí se façam presentes, conferem à alma a nova função que as torna capaz de ensaiar seus primeiros vôos. É através do puro intuito de penetrar no silêncio e expandir a consciência que os véus dos estados psíquicos transcendentes podem ser rasgados.

Por isso, há sempre um par de asas: elas expressam o mistério de nossa imagem e semelhança divinas; conquanto uma delas representa nossa entrega aos desígnios de Deus, a outra traduz a benção dada por Ele sobre toda obra que “aceitamos/escolhemos” realizar em Seu nome. Sempre que os homens alados se predispõem a isso, descobrem em si a verdadeira potência da imago-dei (imagem de Deus) que todos trazemos guardada na alma.

 

ANJUMANOS

 

         Eu sou teu anjo e sim, tu és o meu!

         Nas vezes em que eu menos, mal consigo,

         que eu sofro em solidão sem ter o amigo,

         és tu que eu sei trazendo a luz ao breu.

 

                   Nas vezes em que és tu que esqueces os céus

                   e cais virgem em vertigem em perigo,

                   sou eu quem te protege, sou quem sigo

                   moldando as minhas asas aos teus véus.

 

                            E a vida é flor perfeita em seus arranjos:

                            choramos mesmas lágrimas sentidas,

                            banhamo-nos no amor da compaixão

 

                                      E mesmo quando em quedas mais sofridas,

                                      sabemos que ao vencer da escuridão,

                                      uns dos outros, nós todos somos anjos!

 

                                               Paulo Urban  

                                               Sonetista do Aquarismo

25 de abril de 2009

SONO-MOR

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 4:07


Eram mandalas de arcabouços bioneuroquímicos que se abriam e se fechavam, ora engolindo, ora cuspindo as suas já mais perdidas certezas, imagens presas em multicoloridas contas de sinapses, caleidoscópicas miragens dançantes entrespaços absconsos, todas juntas revelando o universonírico na lâmina brilhante e platinada dos espelhos dos neurônios. Linguagem cristalina do divinincosnciente, mapa náutico de todos os argonautas, pedra filosofal da mitologia pessoal, os sonhos cumprem seu papel catalisador de precipitar a nossa queda no mais fundabismo de nós mesmos. À mesa, sentado entre Thanatos e Morpheu, encontra-se o homem, que inebriado adormece ao beber da extremeterna taça de seus sonhos.

 

SONO-MOR

 

Sonhava o sonhador um sonho estranho:

via-se estranhamente despertando

e impressionado cria-se anotando

mensagem recebida em céu de estanho.

 

Plasmalíqüis catódicos em bando,

matrizes de holograma azul-castanho,

caleidoscopionírico emaranho

é o sonhador em sonho assim sonhando.

 

O sonho em pesadelo entrou medonho:

titânicos vulcões jorravam ouro,

dragões beijavam o mar sons estalados,

 

golfinhos de aramadura encouraçados

vazavam em cruzmitarra o cristão-mouro;

estranho, o sonhador sonhava um sonho!

 

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo

 

18 de abril de 2009

À Minha Altura

Arquivado em: Sonetextos — Paulo Urban @ 6:58

Nada havia, como era costume, a comemorar naquela data. Ele acordara cinqüentão. Pra que a festa?

Afinal, dali pra frente, os anos seriam passos em declínio para a morte. Se na década anterior ele já presumira a noção da meia-idade, agora era certo, aquela era a primeira manhã de sua vida em que ele acordava cônscio de que pela frente nada mais poderia haver do que, simplesmente, no máximo, a outra metade.

 

Lembrou-se, nem poderia explicar o porquê, do velho Napoleão que, certa feita, do alto de seu 1.58m de altura, disse quando admoestado por não passar de um nanico: “Um homem não se mede por sua estatura, senão por onde até ele leva o seu destino”.

 

Seu consolo era esse, ainda havia tempo para dar conta de sua missão, ou ao menos descobrir qual era ela. Uma angústia apertou-lhe o peito, fez-se o nó, engoliu em seco. Olhou pro lado e o rádio-relógio marcava em quartzo-rubro a data de seu aniversário e o horário da manhã de dia útil. Era hora de apropriar-se de suas próprias pernas, levantar da cama e buscar encontrar ao longo do dia a própria altura. Propriamente, era aquela manhã uma hora de cura, a de olhar-se cara a cara no espelho e dizer-se bem lá dentralto a si mesmo: eu quero ter-ser essa minha metadinteira!

 

À MINHA ALTURA

 

Minha metade verme me quer homem,

e a metade homem sempre busca a Deus;

caminho por meus passos, sigo os meus

sinais, livre dos ais que me consomem.

 

Minha vontade fraca já morreu,

queimei-a na fogueira dos que somem,

à luz da Lua-mãe de um lobisomem

que a paz fez com seu lobo e já cresceu.

 

Minha vontade forte mata o bicho,

eu dreno o imenso pântano do Estige

e assumo o bom tamanho que me cabe;

 

Mas se hoje eu incinero todo o lixo,

além desses cinqüenta, a alma em metade,

serei o homem do qual me regozije!

 

Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo

 

 

 

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